Boric: ''nunca podemos voltar a ter um presidente que declare guerra contra seu povo''
A íntegra do discurso de Gabriel Boric após sua vitória para a presidência do Chile

Um dos momentos de maior comoção no discurso de vitória de Gabriel Boric, presidente eleito do Chile, se deu quando afirmou seu compromisso com os direitos humanos e com a busca por verdade, justiça, reparação e não repetição. Possivelmente referindo-se não apenas aos tempos duros da ditadura, mas também a violenta repressão aos levantes desde 2019, disse ele:
“Nunca, por qualquer motivo, podemos voltar a ter um presidente que declare guerra ao seu próprio povo. Chilenos e chilenas, vítimas de violações de direitos humanos de todos os tempos, não nos cansaremos de buscar verdade, justiça, reparação e não repetição.” As milhares de pessoas que celebravam sua vitória acompanharam com o mote: “justiça, verdade, não à impunidade”.
Boric sublinhou que sabe que a história não está começando e que a busca por justiça social vem de muito tempo:
“E eu sei e tenho claro que a história não começa conosco. Sinto-me herdeiro de uma longa trajetória histórica, a daqueles que, de diferentes posições, incansavelmente buscaram a justiça social, a expansão da democracia, a defesa dos direitos humanos, a proteção das liberdades. Esta é a minha grande família, que gostaria de ver novamente reunida nesta fase que agora iniciamos. Porque estamos diante de um mudança histórica e não podemos desperdiçar.
Reproduzimos abaixo a íntegra do discurso do presidente eleito, Gabriel Boric Font, em 19 de dezembro de 2021.
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BOA NOITE CHILE!
PO NUI, SUMA ARUMA, PUN MAY CHILE!
[“Boa noite, Chile”, respectivamente em rapanui, aymara y mapuche]
Obrigado a vocês, a todas as pessoas, a todos os povos que habitam o lugar que chamamos Chile.
Quero começar este momento histórico, que é extremamente emocionante e que nos observam o olhos do mundo, agradecendo a todas as chilenas e chilenos que foram votar neste dia, honrando seu compromisso com a democracia. Fizeram-no no duro e nobre norte. Fizeram-no também no sul chuvoso e ventoso. Estiveram no centro quente e fértil. E também em Rapa Nui, Juan Fernández e Antártica Chilena. Fizeram-no desde o estrangeiro. Fizeram-no desde os menores povoados até as maiores cidades.
Não importa, agora neste momento, se o fizeram por mim ou pelo meu adversário: o importante é que o fizeram, que estiveram presentes, que mostraram o seu compromisso por este país que é de todas e de todos. E também, é claro, às pessoas que quiseram comparecer para votar e não puderam fazê-lo por falta de transporte público. Não pode voltar a acontecer que num dia tão importante, tão relevante como este, as pessoas sejam privadas, qualquer que seja o motivo, de exercer o seu direito de voto.
Quero também agradecer àqueles que tornaram possível esta bela campanha. Milhares de independentes por todo o Chile, organizações sociais, que vêm lutando há anos por um Chile mais justo e digno, aos partidos que nos acompanharam, a todas as pessoas que nas últimas semanas se auto-organizaram desde Arica a Magallanes a Arica, desde Puerto Williams a Visviri.
Esta campanha superou todas as nossas expectativas e teve que levantar dessa amaneira para poder alcançar este triunfo categórico. O mesmo compromisso demonstrado durante meses, quero lhes dizer, não deve se limitar a uma eleição. Este mesmo compromisso e entusiasmo serão necessários durante todos os anos de nosso governo para que, juntos, possamos sustentar o processo de mudanças que já começamos a trilhar, passo a passo.
Quero agradecer também minha chefe de campanha, Dra. Izkia Siches, que se colocou a percorrer praticamente todo o país e que colocou tudo e mais um pouco nesta candidatura, com tanto amor, gana. A todas as equipas técnicas que aderiram a esta proposta, a cada um dos independentes e partidos que tornaram esta campanha possível.
Quero agradecer a alguém que geralmente está ausente dos discursos dos políticos. Quero agradecer aos meninos e meninas que nos encheram de carinho ao longo desta viagem, que nos encheram de amor e esperança, com belos desenhos que expressaram com inocência e esperança o Chile com que sonham. Um Chile verde e amoroso, que cuida da natureza e dos animais, que recupera as praças dos bairros para poderem brincar, um Chile onde mães e pais tenham mais tempo para ficar com seus filhos e avôs e avós não estejam sozinhos nisso estágio de sua vida. Olhamos nos olhos das crianças do Chile e sei que não podemos decepcioná-los.
Quero agradecer, com ênfase especial, às mulheres de nossa pátria. Que se organizaram por todo o território para defender os direitos que tanto lhes custaram alcançar. Desde coisas tão básicas como o direito de voto ao direito de decidir sobre o seu próprio órgão.
Do direito à não discriminação em função do tipo de família que decidiram constituir, ao reconhecimento pelas tarefas de cuidado que hoje desempenham. Que dizer-lhes enfaticamente: contem conosco. Vocês serão os protagonistas de nosso governo. Também, e vejo as bandeiras balançando, aos dissidentes e diversidades que há muito têm sido discriminados e nesta campanha viram ameaçado o pouco progresso que tiveram . Em nosso governo, a não discriminação e o fim da violência contra as diversidades e as mulheres junto às organizações feministas serão fundamentais.
Agradeço também à Servel [equivalente à nossa Justiça Eleitoral] pelo seu trabalho impecável. Simboliza o Estado de que precisamos: eficaz, imparcial, justo. À mídia nacional e regional, por levar informações aos lugares mais remotos. Queremos que saibam que temos a convicção que a imprensa livre é o fundamento essencial da democracia e vocês são o seu veículo.
É importante também agradecer a todos os candidatos que participaram desta eleição, porque no final das contas a democracia se faz juntos e precisamos de cada um. Quero agradecer a Yasna Provoste, Sebastián Sichel, Marco Enriquez Ominami, Franco Parisi, Eduardo Artes e também a José Antonio Kast. O futuro do Chile precisa de todos nós do mesmo lado, ao lado do povo e espero que tenhamos a maturidade de poder contar com seu apoio, suas ideias e propostas para iniciar meu governo. Sei que para além das diferenças que temos, em particular com José Antonio Kast, saberemos construir pontes para que os nossos compatriotas possam viver melhor. Porque isso é o que o povo do Chile nos exige.
E por falar nisso, obrigado a minha família, meu pai e minha mãe, meus dois irmãos, meus avós que se foram, a tantos avós que já se foram. À minha companheira de viagem Irina. Vocês são meus pilares nos dias sombrios e os responsáveis por estar aqui hoje.
Vocês já sabem. Venho de Magalhães, no extremo sul do Chile, quase tocando a Antártica. Tenho 35 anos.
E eu sei e tenho claro que a história não começa conosco. Sinto-me herdeiro de uma longa trajetória histórica, a daqueles que, de diferentes posições, incansavelmente buscaram a justiça social, a expansão da democracia, a defesa dos direitos humanos, a proteção das liberdades. Esta é a minha grande família, que gostaria de ver novamente reunida nesta fase que agora iniciamos. Porque estamos diante de um mudança histórica e não podemos desperdiçar.
Compatriotas, serei o presidente de todos os chilenos e chilenas. Dos que hoje votaram neste projeto e agora enchem as praças de todo o Chile, dos que escolheram outra alternativa e também dos que não compareceram para votar.
Os tempos que virão não serão fáceis. Teremos que enfrentar as consequências sociais, econômicas e de saúde da pior pandemia que nosso país viveu em mais de um século. E também os motivos de uma erupção social que ainda seguem presentes e vigentes. Temos claro, alguns não a viram chegar, alguns dizem que aqui não aconteceu nada. Nós sabemos que as demandas por justiça e dignidade seguem presentes no coração da nossa gente. Vai ser difícil, sem dúvida, mas vamos avançar com passos curtos mas firmes, aprendendo com a nossa história.
Porque o Chile tem uma breve história como Estado nacional: apenas dois séculos de vida independente, mas rica em experiências de conquistas, de erros, acertos e frustrações. De belos e difíceis momentos. E aprendemos com essa experiência. Hoje podemos ter mais certeza do que antes sobre algumas coisas.
Um, que um crescimento econômico assentado na desigualdade tem pés de barro, que só com a coesão social, reencontrando e compartilhando um terreno comum, podemos avançar para um desenvolvimento verdadeiro e sustentado que alcance todas as famílias chilenas e também inclua as pequenas e médias empresas que com tanto esforço levantam homens e mulheres honradas em todo o território nacional.
Dois, que desestabilizar as instituições democráticas conduzem diretamente ao reinado do abuso, à lei da selva e ao sofrimento e desamparo dos mais fracos. Meu compromisso é cuidar da democracia, todos os dias de nosso governo. E uma democracia substantiva, que não se reduza somente ao dia da eleição, que é tremendamente importante. Uma democracia em que os bairros, as populações, as organizações sociais tenham protagonismo, porque uma democracia sem o povo não é uma democracia verdadeira.
Três, que o progresso, para ser sólido, deve ser fruto de amplos acordos. E para durar, devem ser sempre passo a passo, graduais, para não inviabilizar ou arriscar o que cada família conquistou com seu esforço.
Quarto, que escutem todos, que o respeito pelos direitos humanos é sempre e em toda parte um compromisso inabalável e que nunca, por qualquer motivo, podemos voltar a ter um presidente que declare guerra ao seu próprio povo. Chilenos e chilenas, vítimas de violações de direitos humanos de todos os tempos, não nos cansaremos de buscar verdade, justiça, reparação e não repetição.
Justiça, verdade, não à impunidade. Impunidade nunca mais no nosso Chile.
São muitos os desafios que teremos que enfrentar. Vocês sabem disso, cada um viveu isso. Uma saúde que seja oportuna que não discrimine entre ricos e pobres, igualando para cima o acesso, a qualidade e os tempos de resposta. Até quando suportaremos essa desigualdade? Como é possível que não haja especialistas para atender uma criança com câncer em certas regiões? Como é possível que, em periferias, a espera seja tão longa que leva à morte nossos compatriotas? Não podemos continuar permitindo essa injustiça e desigualdade.
Pensões dignas para quem trabalhou a vida inteira tornando nosso Chile grande e não podem continuar esperando. Não queremos que continuem a fazer negócios com nossas pensões. Crescimento e a justa distribuição das riquezas devem andar de mãos dadas. Dissemos em nossa campanha que sabemos que as AFPs [sociedades Administradoras de Fundos de Pensão] no Chile, que hoje ganham cifras absurdas a custa do trabalho dos chilenos e chilenas, são parte do problema. Vamos defender um sistema público, autônomo, sem fins lucrativos e sem AFPs.
O drama da falta de moradias e do acesso a serviços básicos que devemos abordar. Fortalecer a educação pública, de cuja luta viemos, quantos de vocês marcharam em 2006, em 2011, em 2012? Somos uma geração que emerge à vida pública demandando que os direitos sejam direitos e não bens de consumo, não negócios. Vamos seguir defendendo este princípio. Vamos garantir os direitos das trabalhadoras a construir um país com trabalho decente, que dignifique com melhores salários. Criar um sistema nacional de atenção que reconheça e valorize as mulheres que hoje cuidam, avançando na socialização, valorização e corresponsabilidade, deixando para trás, de uma vez por todas, a herança patriarcal de nossa sociedade.
A emergência na segurança que vivemos é um tema. Tornar os bairros mais seguros e livres do tráfico de de drogas vai ser uma prioridade do nosso governo. Vamos recuperar os espaços públicos, investindo em cultura, em educação e numa distribuição mais justa da polícia. Vamos expandir o esporte comunitário, fomentar a ciência, caminhando para uma nova relação com os povos indígenas, reconhecendo seu direito de olhar para o mundo desde outras perspectivas linguísticas e culturais, e prestar atenção especial ao cuidado do meio ambiente fará parte de nossas tarefas.
Há uma coisa importante que o mundo inteiro, me parece, deveria escutar: a mudança climática, queridos compatriotas, não é uma invenção. Ele está aqui e tem efeitos diretos em nossas vidas e nas das gerações futuras. Não é por acaso que eles são os jovens da mundo aqueles que levantaram suas vozes, de Greta a Julieta, antes de poderes irracionais que seguem destruindo. Destruir o mundo é destruir a nós mesmos. Não queremos mais zonas de sacrifício, não queremos projetos que destruam nosso país, que destruam nossas comunidades, exemplificamos com uma caso simbólico: não à Dominga [projeto mineiro portuário do governo]. Piñera] Não podemos olhar para o lado quando nossos camponeses e agricultores, quando cidades inteiras não têm água, que é um drama que se vive em todo o Chile, ou quando se destroem, pela avareza de alguns poucos ou por um conceito errado de desenvolvimento, ecossistemas únicos. Em nosso governo vai ser prioridade evitar essa destruição e buscar um desenvolvimento que seja compatível com o respeito ao meio ambiente. E o exigiremos ao mundo inteiro.
Claro, nem tudo pode ser feito ao mesmo tempo e teremos que priorizar para fazer progressos que nos permitam melhorar, passo a passo, a vida de nosso povo. Interessa-me muito dizer-lhes que queremos ir discutindo essas prioridades com vocês. Hoje as praças do Chile estão cheias. Quero que saibam que nosso governo será uma governo aberto, um governo de mãos abertas, que vai estar permanentemente conversando com seu povo a respeito de quais são as prioridades, quais são as condições que enfrentamos para poder avançar em conjunto, porque um governo não avança sozinho. Basta de despotismo ilustrado dos que creem que se pode fazer um governo para o povo, mas sem o povo. Conosco em La Moneda entra o povo. Não será fácil, não será rápido, mas o nosso compromisso é seguir esse caminho com esperança e responsabilidade. Porque vocês sabem que hoje a esperança venceu o medo.
Chilenos e chilenas
Chegamos até aqui com um projeto de governo que se pode sintetizar em poucas palavras: avançar com responsabilidade nas mudanças que o Chile vem exigindo, sem deixar ninguém para trás. Isso significa crescer economicamente; converter o que alguns entendem como bens de consumo em direitos sociais, garantir uma vida mais tranquila e segura, aprofundar as liberdades de todos, e especialmente de todas: em nosso governo as mulheres não retrocederão nos direitos e liberdades que conquistaram ao longo largo da história.
Nosso projeto significa também avançar em mais democracia e, claro e como já dissemos aqui, cuidar do processo constituinte, motivo de orgulho mundial e única forma de construir, em democracia e com todos, um país melhor. Pela primeira vez em nossa história, estamos escrevendo uma Constituição de forma democrática, paritária, com a participação dos povos originários. Vamos todos cuidar desse processo para termos uma Carta Magna que seja de encontro e não de divisão.
Vamos trabalhar em equipe com todos os setores. Os desafios são muito relevantes para serem presos às trincheiras. Aqui todas e todos são necessários. Os trabalhadores que dia a dia constroem as riquezas do nosso pátria. A cooperação do mundo empresarial, construir alianças, aproximar os pontos de vista. Se estamos aqui, é para garantir que a prosperidade chegue a todos os cantos da nossa terra, e para isso ninguém fica de fora.
Nesta noite de triunfo, repito o compromisso que assumimos ao longo da campanha: vamos expandir os direitos sociais e faremos isso com responsabilidade fiscal, faremos ao mesmo tempo que zelamos pela nossa macroeconomia. Faremos bem feito e isso melhorará as pensões e a saúde sem termos que retroceder no futuro.
Teremos um Congresso equilibrado, o que por sua vez significa um convite e uma obrigação de diálogo. Sinceramente, vejo isso como uma oportunidade de nos encontrarmos novamente, de nos unirmos em grandes ações pelo bem-estar de nosso país, de chegarmos a acordos amplos e duradouros que melhorem a qualidade de vida de nossos compatriotas. Confio na responsabilidade de todas as forças políticas de manter as diferenças no quadro das ideias, colocar sempre o bem comum em primeiro lugar e rejeitar clara e inequivocamente a violência na política e na nossa vida em sociedade. Saibam que em mim vocês encontrarão um presidente aberto a ouvir e incorporar diferentes visões, sendo também receptivo a críticas construtivas que nos ajudem a melhorar.
Chilenas e chilenos
Recebo este mandato com humildade. Sei que joga-se, nos próximos anos, o futuro do nosso país. Por isso garanto a vocês que a partir de agora serei um presidente que zela pela democracia e não a expõe, que escuta mais do que fala; que busca a unidade dos acordos e que atende, dia a dia, as necessidades das pessoas; que ele combate o privilégio e trabalhe todos os dias pela qualidade de vida de sua família.
Hoje é um dia de grandes alegrias, mas acima de tudo de grande responsabilidade, o trabalho que temos pela frente é enorme e precisamos de todos. Temos que continuar a ser um, temos que continuar nos reunindo para realizar as mudanças de que o país tanto precisa.
Faremos isso, governando com todas as pessoas. Somando ideias, abrindo portas, construindo pontes. É assim que iremos, passo a passo, construindo aos poucos a pátria justa, dia a dia.
É por isso que esta noite devemos comemorar, mas faremos isso com tranquilidade. Vão para casa com a alegria saudável da vitória limpa alcançada. Peço que cuidemos desse triunfo, que a partir de amanhã teremos muito o que fazer para nos encontrarmos novamente, curar feridas e caminhar para um futuro melhor.
Com a esperança intacta.
Com a consciência dos desafios que temos.
Despeço-me de vocês com um abraço gigante, vou deixar o melhor de mim. Muito obrigado.
Seguimos.
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