Classes populares apoiam impeachment. Que queremos? Estado grande protetor, Estado mínimo ou Estado protetor das castas?
Deveríamos desconfiar da afirmação de que os ricos querem oimpeachment, enquanto os pobres querem manter o governo protetor petista. As classes C, D e E também estão apoiando oimpeachment (veja pesquisa abaixo). O problema é o futuro.
As delações que serão divulgadas nos próximos dias (sobretudo
das empreiteiras Andrade Gutierrez, OAS e Odebrecht), de qualquer modo,
serão o “tiro de misericórdia” do PT, mas ao mesmo tempo aumentarão a
octanagem do desespero dos
demais partidos e grandes lideranças (de todas as cores), a começar
pelo PMDB e PSDB. As “bombas” atingirão todos eles (e a Lava Jato e o
STF têm que mostrar imparcialidade, investigando todos).
A questão já não é o impeachment (entre 7 e 8 em cada 10 o querem), é o “day after” (o futuro). Que acontecerá depois do PT fora do governo? Que tipo de Estado seria melhor?
A pesquisa Data Popular iniciou
a prospecção desse tema. Cuidou de duas tendências: (a) um Estado
grande e protetor (“pai dos pobres”) e (b) Estado mínimo (“indiferente
aos pobres e trabalhadores”).
Ambas não batem com o que pretendem as castas intocáveis dominantes:
que o Estado (patrimonialista) continue sendo a “mãe dos ricos”,
leia-se, a “vaca leiteira” delas (que comandam a nação, pensando apenas
no bolso e nos privilégios delas) (veja abaixo os vários pensamentos
sobre o tema).
Para se perceber a relevância e a grandiosidade da questão do apoio ao impeachment,
recordemos o seguinte: nas eleições de 2014, conforme o Datafolha, nas
classes A e B, dois de cada três votos foram para o PSDB (Aécio). Nas
classes C, D e E, dois de cada três votos foram para o PT (Dilma). Como
numericamente estas últimas são maiores, Dilma ganhou.
Que as classes A e B queiram (majoritariamente) o impeachment não
surpreende (não votou nela). A surpresa reside no apoio forte que as
classes que ganham renda familiar até R$ 3.500 mensais (classes C, D e
E) estão dando à retirada antecipada de Dilma do poder. Isso é
disruptivo. Desde 2006 foram essas classes que deram sustentação ao PT
nas eleições (ver Singer, Os sentidos do lulismo).
Quem constatou o pensamento das classes da base? O Data Popular.
Ninguém entende mais a cabeça do brasileiro nessa faixa de renda (até
R$ 3.500) do que esse instituto de pesquisa. “A defesa do impeachment se
dá na mesma proporção em todas as classes sociais. Mas as razões de
cada grupo para pedi-lo são diametralmente opostas”, explica Renato
Meirelles, presidente do instituto. “Os brasileiros estão bem menos
divididos quanto ao impeachment do que sobre o que deve ser o futuro do
país.”[1]
As
classes C, D e E praticamente não foram para as ruas (nem no dia
pró-impeachment – dia 13/03/16 – nem no dia contra – 18/03/16 -). Elas
acham que isso é coisa de “rico”. Mais: já não acreditam nos políticos
que estão aí (sonham, isso sim, com um “novo salvador da pátria”).
De qualquer modo, a crença de que o impeachment é coisa só das
elites (classes A e B) está equivocada. A suposição de que as elites
foram para as ruas dia 13/03 enquanto as classes populares foram dia
18/03 tampouco é inteiramente verdadeira.
Como explicou Malu Gaspar:
- “As pesquisas feitas pelo Datafolha nas manifestações pró e anti-governo mostram que até havia diferenças entre os dois grupos [mas não tão abissais como se imagina]. Entre os pró-impeachment, 37% ganhavam mais do que 10 salários mínimos; entre os apoiadores de Dilma, 24% tinham a mesma renda. Nos protestos contra o governo, 12% eram empresários. Nos pró-Dilma, 15% eram funcionários públicos. Tanto numa como noutra manifestação, porém, perto de 80% dos manifestantes tinham ensino superior, cerca de 30% tinha carteira registrada, e mais da metade ganhava mais do que 5 salários mínimos. Do que se concluiu que, de um lado e de outro, quem estava na rua era parte significativa da elite. Poucos se deram ao trabalho de perguntar o que pensam da crise os que estão na base da pirâmide e não saíram de casa nem para tentar derrubar o governo, nem para apoiá-lo”[2].
O problema não é o impeachment, é o futuro
A classe C (e, muito provavelmente, também as classes D e E) apoia o impeachment porque está indignada com as restrições do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do Prouni e do Pronatec (constatação do Data Popular).
Não é propriamente a corrupção sua preocupação (para o brasileiro
praticamente “todos” os políticos seriam corruptos). “Todos são iguais”
(esse é o imaginário coletivo).
Para elas (classes C, D e E), a Dilma tem que sair porque não cumpriu os compromissos de campanha e não conseguiu manter intacto ou ampliar esses benefícios. O que elas defendem? Defendem a mesma coisa que os europeus:
um modelo de Estado protetor, provedor, amplo, que cuide dos seus
interesses, da sua qualidade de vida, que mantenha seu nível de consumo e
de bem-estar. Eles sonham com o modelo do Estado de Bem-Estar Social,
desenvolvido por Beatrice e Sidney Webb desde o final do século XIX (e
de que é exemplo máximo hoje a Escandinávia).
As classes A e B, que não dependem dos
programas assistenciais ou previdenciários, nem da escola pública, nem
da saúde pública, nem do transporte público, querem acesso gratuito às
universidades públicas para seus filhos, as melhores carreiras públicas
(mais bem remuneradas) e um Estado enxuto, mínimo. Sustentam em linhas
gerais as teses liberais econômicas do século XVIII (Adam Smith, Stuart
Mill etc.) assim como o atual neoliberalismo de Milton Friedman (da
escola de Chicago). No mínimo, que o Estado não seja um agente
econômico, deixando a economia para os agentes do mercado.
O que as pesquisas socioeconômicas no Brasil não mostram é o que pretendem as castas intocáveis (a
plutocracia próxima do poder estatal, que é guardada a sete chaves).
Acima de todas as classes sociais (A, B, C, D e E) existem as castas intocáveis, que são as que influenciam ou que governam o Estado (e que querem sugá-lo o máximo possível). Ser rico (classes A e boa parcela da B) é uma coisa. Pertencer às castas influentes ou reinantes é outra bem diferente.
As castas influentes são
compostas de agentes econômicos e financeiros ou corporações muito
poderosos, ou seja, agentes do (macro) Mercado ou das entidades
profissionais, ONGs, sindicatos etc. Bem posicionados dentro do Estado.
Às castas governantes(reinantes)
pertencem os agentes públicos (políticos, administradores com alto
nível de responsabilidade, integrantes da Justiça etc.). Para se ter uma
tênue ideia das castas poderosas basta mirar os desdobramentos da Lava
Jato, que está apurando e punindo seus crimes. A Lava Jato, nesse
sentido, é a primeira grande operação sistemática contra as castas
poderosas.
As castas político-econômicas cuidam, evidentemente, dos seus interesses: querem poder, privilégios e dinheiro,
ou seja, querem fazer fortunas ou garantir privilégios com o dinheiro
público, sem concorrência tanto quanto possível, querem oligopólios ou
monopólios, proteção contra o mercado internacional e capitalismo
cartelizado (não o competitivo). Querem dividir em benefício delas o
dinheiro do orçamento público, deixando o mínimo possível para as demais classes sociais (sejam ricas, sejam populares).
Querem a
menor carga tributária possível, sonegar o máximo possível, guardar
suas fortunas no estrangeiro sem pagar impostos, leis de anistia dos
seus crimes tributários, benefícios fiscais, isenções, concessões sem
ônus, privilégios de foro especial, privilégios fiscais, leis
trabalhistas flexíveis, juros altos para seus investimentos, taxas
bancárias escorchantes, nomeação de administradores e diretores de
“confiança”, edição de medidas provisórias favoráveis etc. Em suma,
querem monopolizar ao máximo a farra do Estado patrimonialista, que confunde o patrimônio público com o privado.
As castas representam o establishment,
o comando, a oligarquização do sistema político, que transmite desde
sempre a ideia de cinismo, desencanto e alienação. Ao promoverem osequestro das democracias formais (só eleitorais), as castas econômicas (influentes) “compram” ou “cooptam” as castas políticas (reinantes), formando um clube seleto,
que ora se dedica ao extrativismo (vantagens, privilégios e pilhagens),
ora à corrupção e à roubalheira em geral (cleptocracia).
Do ponto de vista das castas, o voto,
nessas democracias formais, se transformou num ato administrativo
asséptico, inodoro, porque os verdadeiros donos do poder são elas, são
os grandes eleitores. O ódio e a paixão dos votantes (do ponto de vista
das castas) são engolidos pelas urnas e se esgotam nelas. A partir da
abertura das urnas vale a vontade dos supereleitores, não do cidadão comum ou dos gladiadores das
redes sociais, cuja visão raramente alcança a realidade. O povo apenas
autoriza a posse dos políticos, mas a partir daí quem manda não é a
soberania popular, sim, a soberania da plutocracia (das castas), que
normalmente financiou as campanhas eleitorais.
Soberanas, portanto, são as plutocracias, não o povo.
Daí a crise permanente de representatividade assim como a perpetuação
do patrimonialismo estatal, que se identifica esporadicamente com amaioria (recordemos os “pais dos pobres” Getúlio e Lula), sendo em regra “a mãe das castas plutocratas” (leia-se, das minoriasprivilegiadas com acesso ao poder). O povo está ausente das decisões políticas mais relevantes.
A maior ameaça para a aristocracia sempre foi o povo (o demos), tido como infantil e animalesco[3]. Hoje, nas democracias oligarquizadas, o demos foi assimilado e, ao mesmo tempo, passou a ser manipulado, com estratégias de marketing que
convocam os cidadãos-consumidores para exercerem seu ilusório direito, o
de votar. O povo (de acordo com a lógica atual) não tem que ser
exaltado (salvo pelos demagogos populistas), sim, manipulado,
adormecido, anestesiado.
Quem o leva às urnas em determinados períodos são os políticosprogressistas,
que empunham a bandeira da inclusão, contra as elites. Na atualidade,
no entanto, em praticamente todo o Ocidente, quem o estimula a votar são
os populistas radicais oureacionários,
que jogam suas energias assim como o ódio do povo precisamente contra
os mais débeis (os mais fracos), privilegiando as elites e as castas
poderosas.
O fosso ideológico que realmente importa, após o governo do PT, leia-se, após sua saída do poder (por renúncia ou impeachment ou
cassação) é o seguinte: o Estado será (a) protetor dos pobres (Estado
forte), (b) indiferente aos pobres (Estado mínimo, enxuto) ou (c) a vaca
leiteira das castas poderosas (da plutocracia)? Considerando-se que
esse mesmo Estado está quebrado, nosso futuro (qualquer que seja)
necessariamente será traumático, difícil e, eventualmente, violento. O
primeiro cadáver marcará a nova fase da polarização do Brasil.
Em jan/16 o Data Popular perguntou
a 3.500 pessoas de todas as classes sociais se conseguiriam dizer o
nome de uma pessoa capaz de tirar o país da crise – 89% disseram que não
seriam capazes. Entre os 11% que apontaram algum nome, a maioria citou o
papa Francisco. Esses e outros dados que o presidente do instituto
(Meirelles) apurou lhe dão a convicção de que o próximo presidente eleito no Brasil poderá ser alguém que nunca se candidatou à presidência[4] ou que nunca disputou o segundo turno. Veremos.
- CAROS internautas que queiram nos honrar com a leitura deste artigo: sou do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE) e recrimino todos os políticos comprovadamente desonestos assim como sou radicalmente contra a corrupção cleptocrata de todos os agentes públicos (mancomunados com agentes privados) que já governaram ou que governam o País, roubando o dinheiro público. Todos os partidos e agentes inequivocamente envolvidos com a corrupção (PT, PMDB, PSDB, PP, PTB, DEM, Solidariedade, PSB etc.), além de ladrões, foram ou são fisiológicos (toma lá dá ca) e ultraconservadoresnão do bem, sim, dos interesses das oligarquias bem posicionadas dentro da sociedade e do Estado. Mais: fraudam aconfiança dos tolos que cegamente confiam em corruptos e ainda imoralmente os defende.
[1] Ver GASPAR, Malu –http://revistapiaui.estadao.com.br/questoes-da-política/o-que-de-fato-divide-os-brasileiros-naoeo-impeachment/, consultado em 26/03/16.
[2] Ver GASPAR, Malu –http://revistapiaui.estadao.com.br/questoes-da-política/o-que-de-fato-divide-os-brasileiros-naoeo-impeachment/, consultado em 26/03/16.
[3] Ver ERREJÓN, Iñigo, prólogo ao livro La casta, de RIZZO, Sérgio e STELLA, Gian, tradição de Martín López. Madrid: Capitan Swing, 2015, p. 7-9.
[4] Ver GASPAR, Malu –http://revistapiaui.estadao.com.br/questoes-da-política/o-que-de-fato-divide-os-brasileiros-naoeo-impeachment/, consultado em 26/03/16.
*Artigo Livre para Publicação em Sites, Revistas, Jornais e Blogs
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