Ditadura: Livro revela detalhes da prisão de chineses no Brasil
Os jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Melo são autores do livro O caso dos nove chineses onde relatam um episódio, 50 anos depois do ocorrido, e revelam os detalhes do primeiro escândalo internacional de violação dos direitos humanos da ditadura militar brasileira. Com base em documentos inéditos, entrevistas exclusivas, depoimento de um dos sobreviventes e ampla pesquisa, os autores reconstituem um episódio marcante da história recente do Brasil.
As torturas começaram ali mesmo. Horas depois, os homens da polícia política entravam em outro prédio, no Catete, e detinham mais pessoas. No fim do dia, nove chineses estavam presos, identificados como agentes internacionais instalados no Brasil para disseminar a revolução comunista.
Na verdade, os chineses detidos viviam legalmente no país. Dois eram jornalistas, quatro vieram montar uma feira de produtos da China e os demais estavam no país para comprar algodão. Os estrangeiros tornaram-se vítimas da paranoia anticomunista da época, alimentada pelo governador Carlos Lacerda. Foram condenados a dez anos de prisão por subversão, e, após mais de um ano detidos, acabaram expulsos. O Brasil nunca pediu desculpas nem devolveu o dinheiro apreendido com o grupo - um valor que hoje ultrapassa R$ 800 mil. Em seu país, eles se tornaram heróis nacionais e ficaram conhecidos como Nove Estrelas ou Nove Corações Vermelhos voltados para a Pátria. Brasil e China estabeleceram relações diplomáticas 10 anos depois, em 1974, mas o incidente ficou esquecido em arquivos secretos.
Em 1961, o vice-presidente João Goulart tornou-se o primeiro líder latino-americano a visitar a China comunista. Como consequência da viagem, foi assinado um acordo que resultou na vinda de nove chineses ao Brasil. A prisão dos orientais, em 1964, serviu como uma das justificativas para o regime militar implantar o Ato Institucional nº 1 e interrompeu o diálogo entre os dois países, que só foi retomado 10 anos depois, por iniciativa do presidente Ernesto Geisel.
Nas conversas entre o presidente e o seu chanceler Azeredo da Silveira, o caso aparecia com um “contencioso jurídico” que deveria ser resolvido para que a reaproximação pudesse ser completa. O estabelecimento das relações diplomáticas foi assinado em 15 de agosto de 1974, mas o assunto ficou em aberto. Na ocasião, os chineses deixaram com o Brasil a decisão de resolver a pendência.
Cinquenta anos depois da prisão e no aniversário de 40 anos daquele acordo histórico, ambos os países passaram por mudanças profundas. A China se transformou na segunda maior economia do mundo e o Brasil vive uma democracia. A história dos nove chineses, porém, permaneceu sem solução durante todo esse tempo.
Autores
Ciça Guedes é jornalista e economista. Ao longo de 25 anos de profissão, trabalhou em O Dia, Folha de S.Paulo, Globo News, O Globo, e no departamento de comunicação de empresas como Banco do Brasil e Vale. Na Vale, coordenou a equipe que produziu o livro Nossa História, sobre os 70 anos da empresa, comemorados em 2012, e o roteiro do filme de mesmo nome, assim como o livro e o documentário sobre os 40 anos de relacionamento da Vale com a China, celebrados em 2013. Desde 2013, é secretária de Comunicação da prefeitura de Macaé, no Rio de Janeiro.
Murilo Fiuza de Melo é jornalista e historiador. Trabalhou por 14 anos em veículos da imprensa, entre eles Jornal do Brasil, Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, atuando, basicamente, nas áreas de Economia e Política. No JB, escreveu diversas reportagens sobre o golpe militar, entre as quais Ditadura condenou torturadores, publicada em 25 de maio de 1997, na qual revelava o caso inédito de quatro soldados torturados e mortos dentro do Batalhão de Infantaria Blindada de Barra Mansa (RJ), em janeiro de 1972.
Obra: O caso dos nove chineses
Autores: Ciça Guedes e Murilo Fiúza de Melo
Selo: Objetiva
Preço: R$ 39,90
Páginas: 254
Ascom Objetiva
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