Política interna de Israel acentua disputas sobre agressão a Gaza
As variações em cenários políticos domésticos – ou o congelamento de movimentos oposicionistas – são vastamente analisadas em contexto de guerras ou ofensivas militares. Alguma esquizofrenia é frequentemente notada no esforço de “unidade nacional” diante do “esforço de guerra”, que envolve a mídia de forma tão eficiente na reprodução do discurso oficial sobre a ofensiva. É mais uma vez o caso em Israel.
Por Moara Crivelente*, para o Vermelho
Em 2013, quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu forjou sua coalizão de governo com aliados e opositores com dificuldades, já sabia dos desafios, mas contava com uma posição absoluta: qualquer agressão contra os palestinos teria apoio suficiente. O que ele talvez não esperava era a disputa em torno da intensidade e da duração das ofensivas.
Foto: Maan
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Ministros da coalizão de governo reclamam mais uma vez o assombroso: ignorar o Hamas, partido à frente do governo em Gaza taxado de “organização terrorista”, ou melhor, “eliminá-lo”, e não negociar a extensão do cessar-fogo. A contrariedade aconteceu, porém, com mais cinco dias de “trégua”, conforme foi anunciado pelos mediadores egípcios nesta quinta-feira (14), aparentemente sem o conhecimento do resto das autoridades israelenses.
Netanyahu não deliberou com o seu privilegiado gabinete de “Segurança” sobre o acordo e, ao contrário do que prometera, não deixará Gaza desmilitarizada nem terá “eliminado” o Hamas. Sua decisão foi tomada, mas provavelmente acanhada porque não entregou aos aliados e rivais mais agressivos que compõem sua instável coalizão o que prometeu como objetivo de mais um massacre dos palestinos, inaugurado oficialmente sob o nome de “operação Margem Protetora” em 8 de julho, primeiro com bombardeios aéreos.
Entretanto, assim que o Hamas recusou a rendição e reafirmou o direito dos palestinos de resistir à ocupação, ao cerco completo imposto há quase oito anos e ao massacre repetido frequentemente por Israel, as bombas voltaram a ser despejadas sobre Gaza pela via aérea, a marítima e também a terrestre, através das dezenas de tanques que foram deixados na fronteira.
"Eliminar o Hamas"
Para o chanceler Avigdor Lieberman, um dos maiores rivais de Netanyahu e que anunciou recentemente a retirada do seu partido (Yisrael Beiteinu, “Israel é Nosso Lar”) da coligação com o do premiê, Likud (União, ou Consolidação), o final desejável da operação “Margem Protetora”, como ficou conhecida em inglês (em hebraico, o título é “Penhasco Poderoso”), seria a eliminação do Hamas e a entrega de Gaza, desmilitarizada, à gestão da ONU.
Isso levou a uma das primeiras grandes derrotas políticas de Netanyahu, cujo partido perdeu a maioria no Parlamento e ficou empatado com o partido Yesh Atid (“Há um Futuro”), do ministro das Finanças Yair Lapid, igualmente protetor da colonização na Palestina. Em acordo com a agenda do partido Habayit Hayehudi (Lar Judeu), Lapid garantiu, nesta semana, mais 20 milhões de shekels (R$ 13 milhões) às colônias e R$ 39 milhões aos conselhos religiosos, segundo o jornal israelense Haaretz.
Os membros da coalizão de governo do primeiro-ministro ameaçaram repetidamente este aparato devido a, de um lado, o que consideravam “posições demasiado brandas” com relação à Palestina – é o caso do ministro da Economia Naftali Bennett, extremista representante dos colonos, do Lar Judeu – e, de outro, de “prejudiciais para Israel”, como a extensão da ocupação e a protelação das negociações com a Autoridade Palestina – caso da ministra da Justiça Tzipi Livni, que faz duras críticas ao governo neste sentido, mas integra o aparato colonizador.
É aí que está o tal “esforço de guerra” conduzido por uma opinião pública majoritariamente favorável a ela. As críticas são esparsas ou, quando mais veementes, são censuradas ou sofrem represálias, seja nas ruas ou nos meios de comunicação, que funcionam como porta-vozes da propaganda. Foi assim para sustentar a terceira ofensiva contra Gaza em cinco anos – com mais de 3,5 mil mortes no total – e já é assim, há semanas, no rechaço às acusações de crimes de guerra perpetrados pelas forças israelenses, tanto dentro do país quanto nos discursos dos aliados.
Entretanto, nos momentos finais da ofensiva, uma cacofonia é elevada no âmbito interno – com o chacoalhar das alianças políticas domésticas ou das oposições que despertam após o torpor da guerra – e no internacional, com patrocinadores como os Estados Unidos diretamente implicados no massacre dos palestinos. Essa cacofonia, porém, deverá ser avaliada com atenção para que não se repita ainda outra tragédia da história dos palestinos: a impunidade dos ocupantes e opressores.
*Moara Crivelente é cientista política e jornalista, fez parte da redação do Portal Vermelho e integra o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz)
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